Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



As Petições como última arma da cidadania?

Sexta-feira, 30.04.10

 

Um dos políticos que mais recorreu às Petições deve ter sido Wilberforce na causa da abolição da escravatura. Gostei muito deste filme magnífico, Amazing Grace. Wilberforce é, aliás, uma personagem fascinante, inspiradora. Não apenas pelas causas que defendeu, mas também pela sua natureza, o seu amor pela botânica, a sua motivação pelo colectivo, a sua aversão a revoluções, a guerras e à violência em geral. Hesitou antes de se dedicar à política, teria preferido a meditação da vida eclesiástica. Alguém lhe disse que podia conciliar Deus e a política, a possibilidade de agir sobre a realidade. A saúde ressentiu-se, pois qual é o homem que não sente a dor universal? No seu caso, foi o estômago: era difícil digerir uma realidade tão amarga como o sofrimento e a morte de tantos escravos, para manter um negócio muitíssimo rentável para o país.

 

Hoje, no início do séc. XXI, parece que as Petições se estão a tornar na última arma da cidadania. A velha Europa já parece avessa a referendos, tem medo deles não vá o Diabo tecê-las.

E neste cantinho que já foi mais ajardinado?

Se queremos defender a liberdade de expressão, Petição. Se queremos proteger o património cultural e histórico, Petição. Se queremos evitar a descaracterização do território colectivo, Petição. Se queremos travar a apropriação do espaço público, Petição.

Já não chega votar num partido e partir do princípio que a democracia funcione, que o equilíbrio social funcione, que a coesão social seja protegida, que a nossa soberania seja defendida, que o nosso futuro não seja comprometido, que não nos preparem uma nova escravatura, etc. e tal. Nada disto é prioridade dos políticos actualmente no poder, nem mesmo do Presidente.

Restam-nos as Petições.

 

É certo que, já no tempo de Wilberforce, as Petições não se revelaram suficientes. Para conseguir a abolição da escravatura andaram mais de uma década a recolher informação e assinaturas. Finalmente, tiveram de recorrer ao seu engenho e arte. Tiveram de ser criativos e aproveitar uma falha no sistema, descoberta por um advogado (who else?) para conseguir passar a lei. Julgo que também nós teremos de ser cada vez mais engenhosos e criativos para nos defendermos do Estado e da sua máquina infernal. E é se queremos realmente manter a liberdade de escolher um futuro possível. É que eles já nos estão a preparar um futuro, mas não é futuro digno de seres livres, é um futuro de escravos (da dívida, em primeiro lugar, dos lóbis actuais, em segundo, da "nova elite", em terceiro). É isso que realmente queremos?

 

Já não há políticos como Wilberforce. E se os há, não são os escolhidos pelo sistema. O sistema defende-se. Logo que surge um Wilberforce, tentam anulá-lo, neutralizá-lo.

Teremos de ser mais inteligentes e criativos. Refiro-me à chamada sociedade civil. E não nos podemos ficar pelas Petições. Teremos de recorrer ao nosso engenho e arte.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:04








comentários recentes



links

coisas à mão de semear

coisas prioritárias

coisas mesmo essenciais

outras coisas essenciais

coisas em viagem


subscrever feeds